Escolas de Natação em tempos de transformação
A complexidade de planejar e gerir organizações, de qualquer modelo, nesse mundo contemporâneo, que está em uma travessia, reorganizando sua visão, seus valores básicos, sua estrutura social e política para esse novo modelo de sociedade surgida na chamada quarta revolução industrial, só tem aumentado.
Alvin Toffler,
escritor e futurista na década de 1980 cunhou a frase lapidar: “O analfabeto
do século XXI não será aquele que não sabe ler e escrever, mas aquele que não
consegue aprender, desaprender e reaprender”. Fato.
Novas práticas
substituem as antigas e requerem novos comportamentos e respostas. Precisamos desaprender
e assim, abandonar o que não nos serve mais para adotar novos conhecimentos. Atualmente,
é crucial compreender e praticar o
conceito de “lifelong learning”, aprendizagem continuada, tanto formal como
informal, pois ela possibilita estar no compasso da evolução da sociedade.
Por outro
lado, o Zeitgeist, palavra alemã que significa o espírito do tempo, norteia
o que as pessoas querem e buscam em um determinado momento da civilização. No
início dos anos 20 do século XXI, ele pode ser expresso por tecnologia, meio
ambiente, agilidade, inclusão, aprendizado contínuo, sustentabilidade,
responsabilidade social, volatilidade etc.
Mundo VUCA e Mundo BANI
Existem duas teorias transformadas em acrônimos, criadas em momentos
distintos, que procuram guiar as reflexões para encarar, de
uma forma pelo menos razoável, as circunstâncias da realidade atual: o
mundo VUCA e o mundo BANI.
VUCA é um
acrônimo criado no final da década de 1980 pelo US Army War College para
ilustrar o mundo que emergiu de um cenário pós-guerra fria e, no início dos
anos 2000, começou a ser citado em livros de negócios, sendo incorporado nas
análises estratégicas das empresas.
Volatilidade,
Incerteza, Complexidade e Ambiguidade se tornaram conceitos comuns para as
pessoas que trabalhavam com estratégia e planejamento.
A Volatilidade
significa que mudanças causam variações muito grandes, rápida e constantemente.
A Incerteza causada pelas mudanças rápidas ofusca a visão do futuro,
dificultando o planejamento. A Complexidade significa que tudo está
interligado, pessoas e tecnologias, complicando as decisões. E a Ambiguidade
não nos permite mais ter a clareza do que é que certo ou errado, de forma cabal,
dificultando a leitura de cenário.
Porém, para um
grupo grande de pessoas, o mundo VUCA não faz mais sentido, já que as condições
atuais são diferentes de quando a teoria foi criada, por isso surgiu uma nova
forma de interpretar; o Mundo BANI.
O conceito foi
desenvolvido pelo antropólogo, autor e futurista americano Jamais Cascio e apresentado em um
artigo chamado Facing the Age of Chaos (Enfrentando a Era do Caos), publicado
no site Medium em 29 de abril de 2020.
BANI é o
acrônimo de Frágil (Brittle), Ansioso (Anxious), Não Linear (Non
linear) e Incompreensível (Incomprehensible).
Frágil –
Podem surgir situações desastrosas, repentinamente. A pandemia é um exemplo. Ansioso
- Reflexo desse mundo frágil, os transtornos de ansiedade se tornaram marca
do nosso tempo. Não linear - Causa e efeito são supostamente não
interligados ou mesmo divergentes, que geram reações desproporcionais. Incompreensível
- Não temos conhecimento de como as coisas funcionam e a quantidade fenomenal
de dados e informações não gera mais facilidade para encontrar respostas. Nada mais
é certo.
Então, como se
adaptar à realidade moldada pelo mundo BANI na visão do autor da teoria, Jamais
Cascio “...a fragilidade pode ser enfrentada por resiliência e capacitação;
a ansiedade pode ser aliviada pela empatia e atenção plena (mindfulness); a não
linearidade precisaria de contexto e flexibilidade; a incompreensão pede
transparência e intuição. Podem ser mais reações do que soluções, mas sugerem a
possibilidade de encontrar respostas.”
Tomar boas decisões nesse mundo onde o paradigma é a mudança constante
em velocidade crescente, provocada por elementos complexos, na maioria das
vezes dissonantes e desorganizados, não é simples.
Entendendo a
importância de analisar o macroambiente, seja ele pelo enfoque do Mundo VUCA ou
Mundo BANI, reputo como essencial se debruçar em dois pontos em particular:
tecnologia e fator humano.
TECNOLOGIA E FATOR HUMANO
A tecnologia é uma das molas mestras do desenvolvimento da humanidade e
tem um papel preponderante nas mudanças e na velocidade que ocorrem, assim é
importante frisar que as empresas, em especial as ligadas ao setor aquático,
necessitam de uma mudança de mentalidade para atingir a crucial transformação
digital. Muitos imaginam que o fato de adquirir softwares e transferir os
processos do mundo analógico para o digital, sem mudar a lógica de como as
cosias são feitas, são suficientes para transformar seus negócios digitalmente,
quando na realidade, deram apenas o primeiro passo, a chamada digitalização.
Importante, mas insuficiente para atingir a necessária transformação.
A
transformação digital significa uma mudança de mentalidade estratégica. Os processos
são construídos para a realidade onde as barreiras entre o mundo físico e mundo
virtual estão cada vez menos nítidas. E isso é fundamental para oferecer aos
clientes uma experiência fluida e integrada a qualquer momento em que ele tem
um contato com marca, seja na internet ou presencialmente. Portanto, a transformação digital é condição imperativa
para a sintonia com o contexto do mundo no século XXI.
Baseado na
visão integradora dos mundos físico e virtual, o gestor deve prestar particular
atenção à implementação de ferramentas disponibilizadas pela tecnologia para
coletar e organizar dados, já que eles são vitais para a gestão centrada no
cliente.
O conceito de centralidade
no cliente está diretamente ligado a cultura organizacional e reflete como a empresa
pensa e age com os seus clientes, para isso busca conhecê-lo individualmente e
desenhar um tipo de experiência que atenda suas necessidades e desejos. A
maioria das escolas de natação têm em sua cultura a proximidade com o cliente,
o que facilita essa busca por entender e entregar as sensações positivas através
da água que eles esperam. A adição do uso de programas de gestão de experiência
do cliente complementa as informações detectadas na relação pessoal e
potencializa a entrega dos resultados.
É notório que
a evolução tecnológica reflete diretamente na forma como as gerações vão se
relacionando e absorvendo-a, impactando na transformação do comportamento da
sociedade ao longo do tempo. As gerações nascidas a partir dos anos 90 do
século 20, em diante, se relacionam com a internet de forma similar as gerações
pré-internet comercial se relacionavam com a energia elétrica, ou seja, algo natural
e essencial na sua forma de interagir com o mundo. Mal notam sua presença, a
não ser quando ela falta. Sendo assim, grande parte dos clientes atuais e num
futuro breve, a maioria, demanda uma relação pautada pela agilidade e
disponibilidade, com a menor quantidade de barreiras para obter o serviço ou
produto no tempo desejado.
O paradoxo da
evolução tecnológica e sua importância para os seres humanos está no fato que
quanto mais virtual for o mundo, maior será a necessidade de intensificar as
relações humanas. A tecnologia em excesso ativa
o “Modo Humano” como define Rohit Bhargava, Professor de Marketing da
Georgetown University: “as
pessoas buscam e valorizam mais experiências físicas, autênticas e
‘imperfeitas’, projetadas com empatia e entregues por humanos”. Isso se reflete
no consumo, como completa o professor Bhargava “Os consumidores querem uma
conexão autêntica e histórias convincentes por trás de suas escolhas de marca.”
Dentro da
perspectiva do Modo Humano de Barghava, as escolas de natação e centros de
atividades aquáticas em geral são, por vocação, centros de relações humanas, que
oferecem as desejadas experiências no mundo real. Além disso, como característica universal, as
escolas de natação são negócios locais e de pessoas conhecidas por seus
clientes e frequentadores, com histórias de vida que criam conexões reais, tornando-se
um fator positivo de relevância na competição de mercado para ter sua marca
escolhida, em um mundo onde grandes organizações proliferam.
Além do fator
humano, o gestor deve também se atentar ao uso das ferramentas tecnológicas de
forma adequada, para coletar e organizar dados, buscando o equilíbrio entre a
disponibilidade abundante de informação com a real capacidade de transformá-la
em conhecimento aplicável, para não desperdiçar energia e tempo em informações
que não agreguem valor e até compliquem o processo decisório. Na gestão é
essencial escolher os indicadores de performance adequados e assertivos para a
tomada de decisões.
A simbiose
entre tecnologia e o ser humano fica cada vez mais perceptível e como não
poderia deixar de ser, na gestão de qualquer organização aquática o uso dos
recursos tecnológicos é necessário para facilitar os processos, sejam eles
quais forem (administrativos, comerciais, financeiros etc.), porém na relação
dentro da água com os clientes / alunos / pacientes / atletas, a tecnologia
deve servir como apoio para a relação entre pessoas. Como eu costumo afirmar “A
tecnologia cria o cenário e os seres humanos são os artistas que protagonizam a
peça.”
ESG
Como fechamento do texto trago a questão da sustentabilidade para
o campo das escolas de natação e centros de atividades aquáticas. Esse tema ganhou
força em 2004 em uma publicação chamada Who Cares Wins (Ganha
quem se importa), por iniciativa do Banco
Mundial em parceria com o Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU) e
instituições financeiras. Na publicação foi criado o acrônimo ESG (Enviromental, Social and Governance) que
busca combinar práticas de desenvolvimento econômico, sustentável e
social. Essa ação levou a sustentabilidade para outro nível, mostrando para as
empresas que investimento em ações sustentáveis, com o entendimento mais amplo
gerado pelo ESG, é a maneira de mantê-las relevantes no mercado.
Provando que essa é uma tendência
que vai ser absorvida pelo setor aquático, já existe a primeira escola de
natação no mundo a receber uma certificação B - que atesta as empresas que o
possuem e respeitam os mais altos padrões de desempenho social e ambiental,
transparência e responsabilidade legal - conquistado em setembro de 2022 pela
Ocaquatics de Miami (Indoor
Warm Water Swim Lessons | Miami | Ocaquatics Swim School)
Para estar alinhada com o comportamento ESG, as escolas de natação
e centros de atividades aquáticas tem a incumbência de seguir o comportamento
dos clientes, que estão cada vez mais vigilantes e preocupados em retribuir, na
forma de consumo, àqueles que se comprometem com as causas que são relevantes
de acordo com o espírito do nosso tempo. Seguindo a visão ESG, no aspecto de
consciência ambiental as empresas e entidades aquáticas devem como exemplo; se
preocupar com o consumo consciente da água, investir em reuso, buscar fontes de
energias limpas etc. Na questão social estarem atentas às transformações
comportamentais que estão ocorrendo e em função disso oferecerem espaços
adequados em vestiários, estarem preparados para a inclusão de pessoas com deficiência (física, auditiva, visual ou intelectual), apoiar causas importantes na comunidade como a segurança
aquática etc. E na visão de governança, estarem atentas as práticas éticas
investindo em processos para a segurança de informações dos clientes, agir com
transparência na relação com os clientes e funcionários etc.
Concluindo; são muitos os fatores que interferem na gestão de
qualquer negócio, e neste texto descrevi apenas alguns, que não podem ser
desconsiderados no plano estratégico que toda escola de natação ou centro de
atividades aquáticas deve ter. Planejar no Mundo VUCA e/ou BANI é difícil, mas
não planejar faz a viagem acontecer por uma estrada esburacada, sem iluminação,
sem sinalização, com muitas curvas perigosas em uma noite escura e chuvosa. Obrigado
por seu tempo e desejo que o texto possa lhe ajudar a melhorar sua viagem.



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